Quando tudo aconteceu, Victória Portes ainda era uma psicóloga no começo de carreira. Tinha uma sala no consultório de sua tia, também psicóloga, na Mooca. Devido a sua idade, julgavam-na talvez menos experiente se comparada a alguém com uma idade mais avançada, por isso a maioria de seus trabalhos era voluntário contando como experiência e, para ela, satisfação de ajudar alguém.
Em geral quem procurava seus serviços particulares eram pais preocupados com a falta de atenção dos filhos em sala de aula. O que, geralmente, não era algo psicologicamente complexo. Já os trabalhos voluntários envolviam temas um pouco mais sérios, pois ela lidava com crianças e adolescentes carentes, que muitas vezes já haviam sido maltratados ou que enfrentavam problemas familiares.
Sua rotina variava, mas nada emocionante. Ela acordava todo dia achando que estava atrasada, se dava conta do horário, tentava voltar a dormir e quando finalmente aceitava que não conseguiria ,fazia café. Demorava cerca de uma hora para se aprontar e tomar seu caminho para o consultório.
Na hora do almoço ia a um restaurante simpático nas redondezas e sentava do lado de fora para poder observar pessoas aleatórias passando e criar histórias e motivos para elas estarem onde estavam, quando estavam.
Seguia seu dia, até a hora de voltar para casa, quando um trânsito perturbador acabava com sua calmaria. Ao chegar, abria a porta deixando seu mocassim na frente do aparador, andando descalça pela casa. Fazia quase metodicamente as mesmas coisas todos os dias.
Em uma manhã de quarta-feira, porém, ela não acordou antes do horário. Acordou, na verdade, com o som do despertador as 07h45, o que não a fez chegar mais cedo no trabalho, e sim no horário certo.
Essa mudança estranhamente repentina de rotina poderia acabar nisso, em algumas horas a mais de sono. A não ser pelos acontecimentos que a esperavam: encontrar algo que parecia realmente desafiador! Estava ela então caminhando em direção ao restaurante de sempre quando seu telefone tocou. O consultório fecharia na parte da tarde para conserto de um vazamento no lavabo da recepção. O que faria ela agora? Ela, que tinha mania de planejar e fazer listas pra tudo, curiosamente não tinha esse imprevisto calculado. Poderia visitar
alguém, passear, almoçar algo diferente...
Foi então que algo a levou ao seu restaurante favorito – ela gostava de sentar sempre no mesmo lugar. Enquanto pensava consigo mesma que o dia que estava vivendo parecia conspirar para algo, reparou um folheto
rabiscado na mesa. Era algo sobre um grupo de inclusão para crianças. Ficou parada pensando em como ela poderia explorar a psicologia e não se restringir a uma área somente. E se houvesse um grupo de conversa
para incentivar as pessoas a viver mais? Pessoas compartilhando que estão felizes com suas vidas e encorajando outras a ficarem também.
No caminho de volta para casa não pensava em mais nada a não ser em como sua ideia era utópica, mas poderia dar certo. Foi então que com uma série de pesquisas sobre o tema, se animou em planejar seu
projeto, o qual chamou de “Conspiração”. Com empenho no projeto, propôs a uma das ONGs em que trabalhava que mudassem seu programa de apoio psicológico. Conseguiu que a ideia fosse testada com um prazo de dois meses para resultado. As conversas se tornaram mais leves, cada integrante aos poucos dizia o que o deixava feliz, alguns até davam conselhos.
Em dois meses os resultados foram bons, talvez não tanto quanto ela achava que seria, mas Victória sabia que havia mirado muito alto e que realizar plenamente seu projeto dependeria de tempo e dedicação. Oportunidade não faltaria, já que agora nomeada psicóloga definitiva da ONG, era líder e realizadora de um projeto que de uma forma mais positiva também ajudava aqueles que recorriam a psicologia.
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