E, andando naquela rua, Tarsila viu todas as vielas sujas do centro. Saiu pela avenida, a multidão assolando pelo horizonte.
Três semanas atrás, durante um show no Arpoador, o ponto na orelha esquerda falou com ela mais uma vez.
- Última música, termina o show aí. A gente precisa conversar.
Depois do show crítico, começando com “Panis Et Circensis” e terminando com “Polícia”, Tarsila Beatriz Pereira Da Milano, ou Tabe (seu apelido, definido por ela mesma como escroto) abriu as portas para o camarim. Lázaro estava lá, sentado no sofá e tomando uma garrafa de uísque.
- E aí, Laz? - disse a moça.
- Você nem sabe! Últimas novas direto da BBC. - Ele abriu o laptop da garota no site. - Governo entra em estado de guerra civil.
Tarsila sorriu: só podia ser uma piada.
- Não... Nem caí nessa, piá. Pode refazer os elementos, eu conheço essa aí!
- Não dá! - Ele apertou F2. O site atualizou para a mesma página: nada mudara. - Acho bem-bom a gente sair do país.
A notícia era esperada: não posso dizer que não. Primeiro, os estudantes mortos. Aí os policiais degolados. Três idosos exilados e um tiro no meio da testa do governador.
Mesmo assim, ela soou como um soco na boca do estômago.
- Não tem nada igual desde a Revolução de 1789! O país está em polvorosa, “se pá”, eles estão até falando francês.
- Eles?
- Os revoltosos...
- Ah... - desde os primeiros incidentes um grupo de universitários revoltadinhos criou uma guerrilha. Eles se diziam de esquerda, mas eram totalmente direitistas. O nome escolhido por eles não era digno: Soldados da Pátria.
- E então?
Tabe não percebera, mas Laz esperou uma resposta sua por exatamente um minuto. Enquanto isso a moça, como num transe, mergulhava fundo em lembranças de acontecimentos recentes.
- Vamos ficar. Talvez a revolta não dure muito.
Uma semana depois o presidente fora descoberto morto, nu, com nada além de espuma saindo de sua boca. Curarem, ou a camisa cinza de Tarsila Beatriz não era cinza.
Foi-se detectado o Curarem, claro, mas não de onde viera. Então enterraram o velho e fingiram que o morto morrera de infarto. Após os fatos fatídicos, o vice assumiu o “trono”. O tal, diferentemente do defunto, era direitista tanto quanto os Soldados, ao qual era totalmente a favor. Os Soldados logo se mostraram bastante felizes com isso e acabaram por pegar um lugarzinho no Congresso.
Daí começou o terror. Primeiro, os estudantes mortos. Aí os policiais degolados. O país se transformou numa câmara de gás nazista: cheia de mortos... (Talvez não, pois os nazistas provavelmente faziam um trabalho muito menos sujo. Diferentemente de todos esses idiotas Soldados...)
E o pior de tudo: não havia um motivo, nenhuma explicação dada por nenhum deles, era, talvez, morte por diversão.
Ainda naquela semana dos policias, um idoso fora espancado com um martelo como “Traidor da Nação” e exilado para as Ilhas Canárias com, é claro, um hematoma redondo gigante no abdômen. Foi a gota d'água.
A hora marcada na rede social foi 17h. Quarenta e sete mil civis apareceram no primeiro movimento, Tarsila à frente comandando tudo, acompanhada da bandeira da Pátria. Nos primeiros dois movimentos, os policias não degolados (filiados aos Soldados) usaram do máximo de violência não-letal. No terceiro dia, os homens não pensaram duas vezes...
De oitenta e sete mil pessoas, metade não voltou para casa...
Tarsila andava pela avenida de mãos dadas com Richard, seu namorado e bateirista da Brazilian Left Hand, sua banda de rock. Na tal ainda havia dois colegas de Tarsila: Lucas, o bateirista, e Billy (baixista). Tarsila era cantora mas, na verdade, todos cantavam algumas músicas, dependendo de qual fosse.
Tarsila entrou na multidão. Enquanto ela passava, todo o povo gritava, desvairados. Um dos homens, ao reconhecê-la, gritou:
- E aí vem a moça! - E começou a bater palma.
A multidão parou e virou-se para ela. Todos começaram a bater palmas e davam espaço para ela passar.
Ainda naquela manhã Tabe acordara na casa de Richard. Ele fizera o café e trazia para ela, na cama. Ela pegou a bandeja e ele a fitou por um tempo.
Saímos agora da cabeça da bela Tarsila Beatriz Pereira Da Milano para ir à cabeça de Richard Sousa Bernardo Almeida.
E ele a fitou por um tempo. Seus cabelos negros... Na verdade, loiros! Ela os havia pintado, para que houvesse um motivo roqueiro nela. Seus olhos verdes eram um tipo de... Aspiradores de pó? Vá, aspiradores de pó. Eles podiam tragar-lhe, levar-lhe... Ele, então, começou a olhar para outras partes de seu corpo que não seriam de bom tom comentar neste texto, além do nariz e da boca... Mesmo assim, o aspirador de pó queria tragar-lhe para todos os tipos de pó possíveis existentes naquela retina profunda dela.
Enfim... Seu nariz comprido e um tanto fino contrastava em seu rosto. Sua boca, seus lábios... Não dava para caracterizar. Richard decidiu, então, olhar para seus pertences... Seu tênis All-Star branco com motivos de bandas famosas, como Pink Floyd e Legião Urbana, sua camiseta cinza em seu corpo, a calça jeans rasgada na cadeira ao lado do bar.
Tarsila Beatriz era, em si, um partido para poucos. Mas faria todo o sentido se qualquer garoto grudasse nela... E, como ela não gostava de tanta “grudanagem”, como ela chamava, Richard fazia o máximo para que ele mesmo não fizesse tal coisa.
- Temos um compromisso hoje, não se esqueceu, não é? - disse ela.
Ele esquecera, óbvio. Havia feito até uma lista de coisas que ele queria fazer com ela naquela tarde, além de jogar Street Fighter a manhã inteira, se ela não tivesse acordado quase ao meio-dia.
- Não, que é isso...
Richard afagou-lhe os cabelos, afinal, Tarsila tinha cabelos macios... Quem não gosta de encostar em algo macio?
- Vou fazer lasanha para o almoço. - Tabe dissera, de prontidão.
- São quase meio-dia... Eu acho que, se você for mesmo fazer, a gente só come às cinco...
- Afe, seu bobo... Não demoro tanto assim para fazer lasanha... - Ela riu – Até as três fica pronto...
- Ok. Então eu faço o macarrão pra janta quando a gente voltar.
- É... - um barulho de tiro ecoou em seu coração. - Se... Se a gente voltar.
Ela sorriu um sorriso amarelo, pegou suas vestimentas e as pôs no corpo. Calçou o All- Star e passou na frente da TV onde o videogame estava plugado. Chegou perto de Richard, beijou-o longa e levemente e abriu a porta da quitinete e disse:
- Vou pensar antes de irmos, ok, piá? Nos falamos em pouco tempo.
E saiu...
Richard, então, lavou o prato e o copo nos quais Tarsila tomara café. Ele sabia onde deveria achá-la. Ao terminar de lavar os pratos, ligou o videogame e pensava, enquanto jogava.
Deu quatro horas... Richard pegou sua bolsa e saiu como estava de sua casa. Chegou na praça na frente da casa dos pais de Tarsila, que mais parecia a Mata Atlântica do que uma pracinha. Tarsila passava horas lá, se deixassem. Ela podia ouvir música, treinar canto e dormir (às vezes), mas preferia mesmo era ficar sozinha lá, fumando e pensando... Sempre que o lado depressivo de Tabe atacava, ela corria para a Mata... Digo, praça... Para fumar e pensar. E lá estava ela, quando Richard chegou ao banco onde os dois se conheceram: ela ouvia música e, de praxe, estava fumando; tinha um livro de Friedrich Nietzche aberto nas mãos.
- Vamos? - disse Richard. Ela se assustou.
- Já? - perguntou.
- Sim. Já deve ter começado... - e daqui voltamos para acompanhar Tarsila... Se bem que virá um interlúdio sobre o futuro não muito distante.
Tarsila passou pelas pessoas do movimento, que batiam palmas e gritavam “Tarsila, Tarsila, Tarsila” em coro. Ela chegou perto da caminhonete estrategicamente posicionada no local, subiu no bagageiro com a ajuda de Richard e pulou para o alto da cabine. Lucas, que estava dentro da cabine, saiu e pegou a caixa de som que estava no banco do passageiro, colocou-a no chão e ligou. Billy saiu de um grupo de manifestantes e jogou o microfone para Lucas, que o plugou na caixa de som e jogou para Tarsila. Ela pegou o microfone e ligou. Interferência. Pigarreio.
- Ei, porque a barricada? - gritou ela para os policiais à frente, que haviam montado uma barricada e bloqueavam a passagem do movimento. - Vão nos impedir? Ou melhor: acham que vão? Vocês são todos escrotos... Todos!
Nada falaram, só observavam. Ela decidiu, então, fazer o tão apreciado discurso baseado numa música do Green Day.
- Bom... Vamos todos dar as boas-vindas ao presidente Homem-Bomba... Que destrói o país sem razão nenhuma a não ser o silêncio. - gritos de incentivo foram ouvidos. Silêncio. Um garoto maluco no meio da multidão berrou três palavrões adjetivais ao presidente antes de gritar: “Boas-vindas!” - E, provavelmente, essas bombas nos seus cintos são nossa punição, por sermos homens com alto-falantes chamados cordas vocais, certo? Ok...! Provavelmente vão tentar pulverizar – A palavra saiu enrolada, pois Tabe não conseguia pronunciar direito “pulverização” - as Torres Eiffeis desta Revolução revoltosa... Mas as Torres De Pisa se ergueram acima das Eiffeis!
Com essa frase, os policiais levantaram as armas. Obviamente, eles já sabiam: Ela era a Torre Eiffel, a a maior de todas as outras Eiffeis; ela era a fundadora do movimento desde o primeiro, ela premeditou tudo no momento da morte dos policiais. Tudo, menos algo que ela premeditou na quitinete de Richard, ao comentar sobre o jantar.
- Antes de atirarem – e riu. Uma risada de um segundo, talvez menos. - Quero dizer uma última frase! - Eles concederam o apelo, pelo que me lembro... Mas provavelmente não pensavam em deixá-la ilesa. - Eu imploro aos tão líderes quanto eu que sonhem e sejam diferentes dos piores deste país feito de césio. Este movimento é o amanhecer de todas as nossas vidas!
E o gatilho foi puxado, o barulho foi ouvido, a bala foi sentida... Atravessou o meio do peito, passando pela traqueia. As outras balas não a acertaram plenamente, algumas rasparam, mas nenhuma foi tão mortal quanto esta. Billy e Richard pularam da cabine para o chão, mas o bateirista bateu a perna no retrovisor e se machucou. Lucas levou um tiro na perna, mas foi acolhido pelos manifestantes que dali estavam perto. Já Tarsila se desequilibrou, escorregou e foi de cabeça ao bagageiro.
- Você se esqueceu da lasanha... Saiu e nem voltou para fazê-la. - disse Richard, a caminho da manifestação.
- É mesmo. - e sorriu. - Dispensa o macarrão desta noite, só não se esquece de comprar o presunto, como da outra vez.
Três semanas atrás, durante um show no Arpoador, o ponto na orelha esquerda falou com ela mais uma vez.
- Última música, termina o show aí. A gente precisa conversar.
Depois do show crítico, começando com “Panis Et Circensis” e terminando com “Polícia”, Tarsila Beatriz Pereira Da Milano, ou Tabe (seu apelido, definido por ela mesma como escroto) abriu as portas para o camarim. Lázaro estava lá, sentado no sofá e tomando uma garrafa de uísque.
- E aí, Laz? - disse a moça.
- Você nem sabe! Últimas novas direto da BBC. - Ele abriu o laptop da garota no site. - Governo entra em estado de guerra civil.
Tarsila sorriu: só podia ser uma piada.
- Não... Nem caí nessa, piá. Pode refazer os elementos, eu conheço essa aí!
- Não dá! - Ele apertou F2. O site atualizou para a mesma página: nada mudara. - Acho bem-bom a gente sair do país.
A notícia era esperada: não posso dizer que não. Primeiro, os estudantes mortos. Aí os policiais degolados. Três idosos exilados e um tiro no meio da testa do governador.
Mesmo assim, ela soou como um soco na boca do estômago.
- Não tem nada igual desde a Revolução de 1789! O país está em polvorosa, “se pá”, eles estão até falando francês.
- Eles?
- Os revoltosos...
- Ah... - desde os primeiros incidentes um grupo de universitários revoltadinhos criou uma guerrilha. Eles se diziam de esquerda, mas eram totalmente direitistas. O nome escolhido por eles não era digno: Soldados da Pátria.
- E então?
Tabe não percebera, mas Laz esperou uma resposta sua por exatamente um minuto. Enquanto isso a moça, como num transe, mergulhava fundo em lembranças de acontecimentos recentes.
- Vamos ficar. Talvez a revolta não dure muito.
Uma semana depois o presidente fora descoberto morto, nu, com nada além de espuma saindo de sua boca. Curarem, ou a camisa cinza de Tarsila Beatriz não era cinza.
Foi-se detectado o Curarem, claro, mas não de onde viera. Então enterraram o velho e fingiram que o morto morrera de infarto. Após os fatos fatídicos, o vice assumiu o “trono”. O tal, diferentemente do defunto, era direitista tanto quanto os Soldados, ao qual era totalmente a favor. Os Soldados logo se mostraram bastante felizes com isso e acabaram por pegar um lugarzinho no Congresso.
Daí começou o terror. Primeiro, os estudantes mortos. Aí os policiais degolados. O país se transformou numa câmara de gás nazista: cheia de mortos... (Talvez não, pois os nazistas provavelmente faziam um trabalho muito menos sujo. Diferentemente de todos esses idiotas Soldados...)
E o pior de tudo: não havia um motivo, nenhuma explicação dada por nenhum deles, era, talvez, morte por diversão.
Ainda naquela semana dos policias, um idoso fora espancado com um martelo como “Traidor da Nação” e exilado para as Ilhas Canárias com, é claro, um hematoma redondo gigante no abdômen. Foi a gota d'água.
A hora marcada na rede social foi 17h. Quarenta e sete mil civis apareceram no primeiro movimento, Tarsila à frente comandando tudo, acompanhada da bandeira da Pátria. Nos primeiros dois movimentos, os policias não degolados (filiados aos Soldados) usaram do máximo de violência não-letal. No terceiro dia, os homens não pensaram duas vezes...
De oitenta e sete mil pessoas, metade não voltou para casa...
Tarsila andava pela avenida de mãos dadas com Richard, seu namorado e bateirista da Brazilian Left Hand, sua banda de rock. Na tal ainda havia dois colegas de Tarsila: Lucas, o bateirista, e Billy (baixista). Tarsila era cantora mas, na verdade, todos cantavam algumas músicas, dependendo de qual fosse.
Tarsila entrou na multidão. Enquanto ela passava, todo o povo gritava, desvairados. Um dos homens, ao reconhecê-la, gritou:
- E aí vem a moça! - E começou a bater palma.
A multidão parou e virou-se para ela. Todos começaram a bater palmas e davam espaço para ela passar.
Ainda naquela manhã Tabe acordara na casa de Richard. Ele fizera o café e trazia para ela, na cama. Ela pegou a bandeja e ele a fitou por um tempo.
Saímos agora da cabeça da bela Tarsila Beatriz Pereira Da Milano para ir à cabeça de Richard Sousa Bernardo Almeida.
E ele a fitou por um tempo. Seus cabelos negros... Na verdade, loiros! Ela os havia pintado, para que houvesse um motivo roqueiro nela. Seus olhos verdes eram um tipo de... Aspiradores de pó? Vá, aspiradores de pó. Eles podiam tragar-lhe, levar-lhe... Ele, então, começou a olhar para outras partes de seu corpo que não seriam de bom tom comentar neste texto, além do nariz e da boca... Mesmo assim, o aspirador de pó queria tragar-lhe para todos os tipos de pó possíveis existentes naquela retina profunda dela.
Enfim... Seu nariz comprido e um tanto fino contrastava em seu rosto. Sua boca, seus lábios... Não dava para caracterizar. Richard decidiu, então, olhar para seus pertences... Seu tênis All-Star branco com motivos de bandas famosas, como Pink Floyd e Legião Urbana, sua camiseta cinza em seu corpo, a calça jeans rasgada na cadeira ao lado do bar.
Tarsila Beatriz era, em si, um partido para poucos. Mas faria todo o sentido se qualquer garoto grudasse nela... E, como ela não gostava de tanta “grudanagem”, como ela chamava, Richard fazia o máximo para que ele mesmo não fizesse tal coisa.
- Temos um compromisso hoje, não se esqueceu, não é? - disse ela.
Ele esquecera, óbvio. Havia feito até uma lista de coisas que ele queria fazer com ela naquela tarde, além de jogar Street Fighter a manhã inteira, se ela não tivesse acordado quase ao meio-dia.
- Não, que é isso...
Richard afagou-lhe os cabelos, afinal, Tarsila tinha cabelos macios... Quem não gosta de encostar em algo macio?
- Vou fazer lasanha para o almoço. - Tabe dissera, de prontidão.
- São quase meio-dia... Eu acho que, se você for mesmo fazer, a gente só come às cinco...
- Afe, seu bobo... Não demoro tanto assim para fazer lasanha... - Ela riu – Até as três fica pronto...
- Ok. Então eu faço o macarrão pra janta quando a gente voltar.
- É... - um barulho de tiro ecoou em seu coração. - Se... Se a gente voltar.
Ela sorriu um sorriso amarelo, pegou suas vestimentas e as pôs no corpo. Calçou o All- Star e passou na frente da TV onde o videogame estava plugado. Chegou perto de Richard, beijou-o longa e levemente e abriu a porta da quitinete e disse:
- Vou pensar antes de irmos, ok, piá? Nos falamos em pouco tempo.
E saiu...
Richard, então, lavou o prato e o copo nos quais Tarsila tomara café. Ele sabia onde deveria achá-la. Ao terminar de lavar os pratos, ligou o videogame e pensava, enquanto jogava.
Deu quatro horas... Richard pegou sua bolsa e saiu como estava de sua casa. Chegou na praça na frente da casa dos pais de Tarsila, que mais parecia a Mata Atlântica do que uma pracinha. Tarsila passava horas lá, se deixassem. Ela podia ouvir música, treinar canto e dormir (às vezes), mas preferia mesmo era ficar sozinha lá, fumando e pensando... Sempre que o lado depressivo de Tabe atacava, ela corria para a Mata... Digo, praça... Para fumar e pensar. E lá estava ela, quando Richard chegou ao banco onde os dois se conheceram: ela ouvia música e, de praxe, estava fumando; tinha um livro de Friedrich Nietzche aberto nas mãos.
- Vamos? - disse Richard. Ela se assustou.
- Já? - perguntou.
- Sim. Já deve ter começado... - e daqui voltamos para acompanhar Tarsila... Se bem que virá um interlúdio sobre o futuro não muito distante.
Tarsila passou pelas pessoas do movimento, que batiam palmas e gritavam “Tarsila, Tarsila, Tarsila” em coro. Ela chegou perto da caminhonete estrategicamente posicionada no local, subiu no bagageiro com a ajuda de Richard e pulou para o alto da cabine. Lucas, que estava dentro da cabine, saiu e pegou a caixa de som que estava no banco do passageiro, colocou-a no chão e ligou. Billy saiu de um grupo de manifestantes e jogou o microfone para Lucas, que o plugou na caixa de som e jogou para Tarsila. Ela pegou o microfone e ligou. Interferência. Pigarreio.
- Ei, porque a barricada? - gritou ela para os policiais à frente, que haviam montado uma barricada e bloqueavam a passagem do movimento. - Vão nos impedir? Ou melhor: acham que vão? Vocês são todos escrotos... Todos!
Nada falaram, só observavam. Ela decidiu, então, fazer o tão apreciado discurso baseado numa música do Green Day.
- Bom... Vamos todos dar as boas-vindas ao presidente Homem-Bomba... Que destrói o país sem razão nenhuma a não ser o silêncio. - gritos de incentivo foram ouvidos. Silêncio. Um garoto maluco no meio da multidão berrou três palavrões adjetivais ao presidente antes de gritar: “Boas-vindas!” - E, provavelmente, essas bombas nos seus cintos são nossa punição, por sermos homens com alto-falantes chamados cordas vocais, certo? Ok...! Provavelmente vão tentar pulverizar – A palavra saiu enrolada, pois Tabe não conseguia pronunciar direito “pulverização” - as Torres Eiffeis desta Revolução revoltosa... Mas as Torres De Pisa se ergueram acima das Eiffeis!
Com essa frase, os policiais levantaram as armas. Obviamente, eles já sabiam: Ela era a Torre Eiffel, a a maior de todas as outras Eiffeis; ela era a fundadora do movimento desde o primeiro, ela premeditou tudo no momento da morte dos policiais. Tudo, menos algo que ela premeditou na quitinete de Richard, ao comentar sobre o jantar.
- Antes de atirarem – e riu. Uma risada de um segundo, talvez menos. - Quero dizer uma última frase! - Eles concederam o apelo, pelo que me lembro... Mas provavelmente não pensavam em deixá-la ilesa. - Eu imploro aos tão líderes quanto eu que sonhem e sejam diferentes dos piores deste país feito de césio. Este movimento é o amanhecer de todas as nossas vidas!
E o gatilho foi puxado, o barulho foi ouvido, a bala foi sentida... Atravessou o meio do peito, passando pela traqueia. As outras balas não a acertaram plenamente, algumas rasparam, mas nenhuma foi tão mortal quanto esta. Billy e Richard pularam da cabine para o chão, mas o bateirista bateu a perna no retrovisor e se machucou. Lucas levou um tiro na perna, mas foi acolhido pelos manifestantes que dali estavam perto. Já Tarsila se desequilibrou, escorregou e foi de cabeça ao bagageiro.
- Você se esqueceu da lasanha... Saiu e nem voltou para fazê-la. - disse Richard, a caminho da manifestação.
- É mesmo. - e sorriu. - Dispensa o macarrão desta noite, só não se esquece de comprar o presunto, como da outra vez.
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